Nociva exaltação


O homem é, por natureza e por vocação, um ser religioso. Mas em seu comportamento religioso os homens podem mostrar também erros que falsificam a fé. Vejo que um erro que às vezes aparece nos encontros e nas celebrações religiosas é o da exaltação excessiva da emoção e do sentimento. Esta exaltação não é sinônimo de uma alegria edificante e nem de um autêntico entusiasmo, mas trata-se aqui de uma dispersão nociva que contraria o valor da racionabilidade da fé e isso é ruim porque “a fé, se não for pensada, nada é” (Santo Agostinho). “É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição” (Papa João Paulo II: encíclica Fides et ratio nº 48). Em 1994, após uma reflexão sobre as ambiguidades e as distorções que podem caracterizar o psiquismo humano, seja individual, seja grupal, a CNBB declarou que “deve-se evitar alimentar um clima de exaltação da emoção e do sentimento, que enfatiza apenas a dimensão subjetiva da experiência da fé” (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Documento 53, nº 49). Em uma instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura, a Santa Sé assim orienta: “É necessário que na sua execução não se chegue, sobretudo por parte de quem as orienta, a formas parecidas com o histerismo, a artificialidade, a teatralidade, ou ao sensacionalismo” (Roma, Instrução “Ardens felicitatis”: artigo 5 § 3). Às vezes, a exaltação nas celebrações religiosas aparece ligada ao desejo individual ou coletivo de expulsar o demônio. Sobre isso, a CNBB assim declarou: “Quanto ao “poder do mal”, não se exagere a sua importância. E não se presuma ter o poder de “expulsar” demônios. O exorcismo só pode ser exercido de acordo com o que estabelece o Código de Direito Canônico (cân. 1172)” (Documento 53, nº 67).

À luz da psicologia, podemos compreender que a exaltação é um estado moral que se assemelha ao entusiasmo mas com alguma coisa de mais mórbido e de menos fugaz. É o contrário da reflexão calma. Sob o ponto de vista intelectual, caracteriza-se pela precipitação das idéias, que se sucedem tumultuosamente, sem séria relação lógica. Os juízos são rápidos, sem verdadeira crítica e, por consequência, incompletos, facilmente errôneos ou injustos.

Considerando que a razão beneficia a fé, não se deve confinar a religião fora dos espaços da racionalidade. Deve-se então estimular o conhecimento das razões do crer (1 Pd 3,15), porque  a carência de uma adequada educação religiosa é a causa de diversas formas patológicas de religiosidade, como, por exemplo, a busca de aparições, de mensagens do além, de idolatrias e de coisas semelhantes. Por fim, destaco que também é importante valorizar o silêncio nas celebrações religiosas, assim como pediu o Concílio Vaticano II (SC nº 30). O silêncio é também necessário para encontramos a voz de Deus !

Luís Eugênio Sanábio e Souza

Escritor

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