Reflexão do Dia: Domingo da multiplicação dos pães

Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Dom Orani João Tempesta

A cada final de semana a riqueza da Palavra de Deus ilumina nossa vida e nossos caminhos. Depois do “discurso em parábolas”, em que Jesus revelou aos seus discípulos os “mistérios do reino dos céus”, Mateus continua seu Evangelho com uma nova e longa seção (Mt 13, 53-17, 27) que prepara o que muitos chamam “Sermão da vida da comunidade” (Mt 18). Nele encontramos narrativas e diálogos alternados que focam sua atenção sobre a formação dos discípulos, que constituem o fundamento da Igreja.
A liturgia faz a escolha de alguns textos para uma melhor compreensão da mensagem evangélica, porém, é desejável que as ausências de alguns trechos naqueles proclamados pela Liturgia forneceçam um maior interesse para a leitura pessoal, a leitura orante, a lectio divina.

Neste décimo oitavo domingo do Tempo Comum, a liturgia nos apresenta a passagem de Mateus 14, 13-21, a “multiplicação dos pães”, particularmente importante na tradição evangélica, e um dos mais conhecidos do povo cristão. O episódio é repetido em todos os evangelistas, o que demonstra o fato e o anúncio que esse trecho nos traz.

O texto abre-se referindo-se a Jesus com a notícia que foi trazida pelos discípulos de João Batista, que ele fôra preso e morto por Herodes. Essa informação é importante porque nos mostra como Jesus reage a esse acontecimento: “Jesus saiu de lá num barco para um lugar solitário.” Uma reação semelhante foi observada por Mateus em Jesus, depois de descrever a forma como a multidão estava satisfeita: “Logo após, obrigou os discípulos a entrar no barco e precedê-lo para o outro lado, enquanto ele despedia a multidão. E despedindo-se da multidão, ele foi para o monte e continuou a orar “(Mt 14, 22). Assim, a história da “multiplicação dos pães” está dentro destas anotações sobre o comportamento de Jesus: o ponto comum dessas duas reações é uma escolha de solidão. Esta é a mesma reação a dois eventos opostos: o primeiro é o trágico acontecimento da prisão de João, que representa a tristeza da morte de um profeta e mesmo o perigo de morte que se aproxima para Jesus; o segundo é o feliz acontecimento de uma multidão satisfeita, que alcança um resultado positivo.

Fracasso e sucesso em Jesus causam a mesma reação, a mesma atitude, a mesma decisão: a solidão e a oração. O fracasso pode levar à decepção, à ilusão de sucesso. Solidão e oração são as atitudes normais de Jesus diante dos acontecimentos da vida, e isso revela que Ele é, essencialmente, uma pessoa livre.

O Evangelho deste domingo narra um grande milagre realizado por Jesus de Nazaré – a multiplicação dos pães e dos peixes.
São Mateus diz-nos que o Mestre teve compaixão da multidão que o havia seguido das cidades (Mt 14, 13), desceu da barca onde havia se retirado para orar ao Pai, e começou a curar os que estavam enfermos (v. 14). Jesus, indo ao encontro da multidão necessitada da Verdade, incentiva todo cristão a testemunhar o amor, a anunciar com firmeza que a salvação veio ao mundo através do sacrifício do Verbo Encarnado, que, oferecendo-se uma vez por todas, tornou possível para cada homem e mulher participar da vida divina.

Essa participação é implementada na vida da Igreja através dos sacramentos, sinais concretos que revelam a união do homem com Deus. Desse modo, o cristão, transformado por este encontro, torna-se um instrumento de Deus, evangelizador da Palavra, aquele que procura a multidão ansiosa pela libertação. São Mateus nos diz que, chegada a noite, Jesus ordenou aos seus discípulos para alimentar a multidão reunida em torno dele, com apenas cinco pães e dois peixes. Todos puderam comer e saciar-se do alimento abençoado que lhes foi oferecido pelo Senhor (v.20), aliás, sobraram outras cestas de peixe (v.20).

O milagre indica que só o Mestre pode satisfazer a fome que domina o nosso ser. Os pães oferecidos à multidão é a imagem do Filho de Deus que se entrega à morte e se torna alimento para nós. Saciando-nos com a Eucaristia, na verdade, saboreamos a nossa identidade: ser filhos de Deus e seguir em frente na fé, até ao encontro com o Senhor.

A multiplicação dos pães e peixes é para nós um sinal a que somos chamados a nos comprometer com as pessoas – dai-lhes vós mesmos de comer – e acreditar que o pouco abençoado por Jesus se multiplica para que, através dos discípulos, todos possam ser saciados.

É a nossa missão: colocarmo-nos nas mãos do Senhor, consagrarmo-nos a Ele e, como Igreja, distribuirmos o alimento da vida ao nosso povo. Podemos ser poucos para tantos trabalhos e grande é a missão, mas o anúncio que, mesmo assim, a multiplicação se realiza diante de nossos olhos. É a esperança que a Vida vai acontecendo quando os discípulos de Jesus o obedecem e se deixam abençoar por Ele, vivendo uma vida consagrada.

Irmãos, escancaremos o nosso interior ao amor divino do nosso Redentor: Ele irá satisfazer nossas necessidades reais, e chegaremos, desse modo, a ser arautos da liberdade, homens resgatados, testemunhas do Deus que é Amor.

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