Dom Eugenio: “Fui um instrumento de Deus”

 

Nascido em 8 de novembro de 1920, em Acari, cidade do Rio Grande do Norte, Cardeal Dom Eugênio de Araujo Salles teve uma vida intensa de dedicação a Deus, marcada pelo amor ao próximo e pela preocupação com questões sociais. Para os cariocas, Dom Eugenio foi testemunho de consagração ao Senhor, cujas promessas da ordenação sacerdotal foram vividas rigorosamente no exercício do seu ministério através da fidelidade ao Papa e à Igreja, e no serviço em prol dos mais necessitados. Com 91 anos de vida e 30 como Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugenio entra para a vida eterna após 69 anos de sacerdócio, 58 de episcopado e 43 de cardinalato, o que faz dele o Cardeal mais antigo da Igreja Católica.

Como Bispo, Dom Eugenio foi nomeado em 1º de junho de 1954, com apenas 33 anos, para Bispo Auxiliar de Natal. Em 1962 foi nomeado administrador apostólico de Natal. Foi administrador apostólico de São Salvador da Bahia, em 1964, sendo nomeado Arcebispo Primaz do Brasil em 29 de outubro de 1968. No consistório de 28 de abril de 1969, o então Papa Paulo VI inscreveu Dom Eugenio no Sacro Colégio dos Cardeais, com o título de São Gregório VII. Em 13 de março de 1971, o Papa Paulo VI o transferiu para o Rio de Janeiro, onde foi nomeado Arcebispo da cidade.

 

Durante todo esse tempo, o Cardeal realizou grandes manifestações de fé, mas, para ele, a colaboração dos leigos, dos religiosos e a atuação fraterna dos clérigos foram fundamentais para a realização de todo o seu trabalho como pastor. Dessa forma, Dom Eugenio viveu intensamente o seu lema “Impendam et Superimpendar” (2Cor 12,15) “De mui boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós”. Ele criou pastorais como a Penal, a da Saúde, a do Trabalhador, a das Domésticas, a do Anônimo e a do Menor.

Em entrevista, o Arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta, definiu o Cardeal Dom Eugenio de Araujo Sales como um homem do social, tendo em vista todo o trabalho de evangelização realizado por ele não só na cidade do Rio de Janeiro, mas também em Natal e em Salvador, na Bahia.

 

— A Arquidiocese do Rio de Janeiro está anunciando este momento, que é triste para todos nós, mas, ao mesmo tempo, olha para a vida de Dom Eugenio Sales e o reconhece como um homem de Igreja, homem que seguiu a Jesus Cristo e que, por isso mesmo, trabalhou na evangelização, na preocupação com o próximo. Ele soube estar presente nos principais momentos do Brasil, principalmente na questão dos refugiados, em defesa dos perseguidos e, ao mesmo tempo, teve a sua presença como Igreja no Brasil junto ao Vaticano nas principais decisões, ressaltou.

Campanha da Fraternidade

A fecundidade das múltiplas ações pastorais, sociais e caritativas de Dom Eugenio, em Natal, fizeram com que o seu amigo Dom Helder Câmara, ao fundar a CNBB junto com os Cardeais Motta e Câmara, colocasse em prática as inovações pastorais criadas por Dom Eugenio, sendo que a Campanha da Fraternidade, nascida em Natal sob a guia do jovem Bispo potiguar, assumida pelo episcopado, logo se espalhasse para todo o Brasil, numa capilaridade pastoral perfeita, em que assuntos prementes da vida eclesial sejam discutidos e trabalhados sempre na busca de soluções melhores para a vida do povo.

A questão social

 

A Igreja no Rio viveu esta comunhão e esta unidade pastoral na fidelidade e no silêncio da ajuda caritativa que sempre chegou aos mais pobres e mais desvalidados, principalmente com a Cruzada São Sebastião, o Banco da Providência, com a sua Feira da Providência, a Pastoral da Criança, entre outras muitas atividades sociais.

Em entrevista ao Portal da Arquidiocese do Rio de Janeiro, por ocasião dos seus 90 anos, Dom Eugenio destacou a criação da Pastoral das Favelas, que foi fundamental no caso do Vidigal, na época em que a prefeitura iria remover todos os moradores da comunidade localizada na Avenida Niemeyer. Através do apoio da Pastoral, a remoção foi impedida. O acontecimento mudou a política fundiária. Com o respaldo legal, nenhuma comunidade poderia ser removida. Foi naquele mesmo momento que o então Papa João Paulo II visitou o Rio de Janeiro e fez um discurso aos moradores da comunidade. O Pontífice ofereceu à comunidade o seu anel papal, como um presente, simbolizando a solidariedade aos menos favorecidos.

— A visita do Papa João Paulo II foi extraordinária. Ela revelou a bondade do Papa, o afeto dele com nossa comunidade diocesana, disse o Arcebispo Emérito.

Trabalho Vocacional

 

Sempre preocupado com a propagação da Palavra, Dom Eugenio investiu no trabalho vocacional e de formação. A atenção permanente com a formação do clero foi uma das marcas de Dom Eugenio, que renovou o Seminário São José, incentivando as vocações, ordenando muitos presbíteros — um total de 215 sacerdotes durante o seu episcopado — e dando uma assistência especial, por si ou por seus Bispos Auxiliares, aos Padres de sua Arquidiocese.

— Me lembro bem, que foi feito um trabalho de convocação e propaganda da vocação eclesiástica. Também recolhi recursos para o seminário poder abranger tantos seminaristas. Implementei um número mínimo de ordenação por ano, mas sem perder de vista a formação eclesial e pastoral, frisou Dom Eugenio.

Para os Bispos do Brasil, ele organizou anualmente o Curso dos Bispos, no Sumaré, onde teve a alegria de hospedar, em sua primeira edição, o então Cardeal Joseph Ratzinger, que veio falar ao episcopado e, depois do mesmo, falou para leigos e religiosos. Esses encontros eram e ainda são momentos de oração, de renovação espiritual e de atualização nas várias áreas da teologia e dos assuntos eclesiais.

Ajuda a todos que precisam

 

O Arcebispo Emérito primava ainda por uma ampla e silenciosa rede de assistência aos mais pobres, que foi idealizada, levada a efeito e protegida, em seu longo governo de 30 anos no Rio de Janeiro. Não era apenas um discurso a defesa dos pobres, mas na prática, no dia a dia, no socorro de suas necessidades e na sua colocação profissional, ou seja, na sua promoção.

O Cardeal Sales, silenciosamente, como ele mesmo gostava de dizer, protegeu os presos políticos, ajudou-os materialmente e foi a sua voz junto aos militares. Sempre foi ouvido pelo respeito de suas posições claras, não se comprometendo nem com os militares e nem com a luta armada. Todos conhecem histórias de como ele mesmo levava pessoas que necessitavam sair do país, com o seu veículo, até o aeroporto. Dom Eugenio é também referência para os refugiados na América Latina e, através de sua ação, deu asilo e proteção a muitas pessoas perseguidas em seus países. Muitos retornavam e faziam questão de dizer como o Arcebispo do Rio agia com energia e ajudava os que mais precisavam.

No mundo da cultura

No mundo da cultura, o episcopado de Dom Eugenio foi admirável, não só no diálogo com o vasto mundo intelectual do Rio de Janeiro, mas nas parcerias entre a Arquidiocese e a intelectualidade. Homem da boa imprensa, sempre manteve colunas semanais em jornais como: “Diário de Notícias”, “O Dia”, “Jornal do Commercio” e “O Jornal”.

Além disso, mantinha programas nas TVs Tupi, Rio, Globo, Educativa, RedeVida, Canção Nova e rádios, entre elas Nacional, Vera Cruz, Roquette Pinto, Jornal do Brasil, Carioca, Catedral e Canção Nova. Foi durante a administração de Dom Eugênio que a Arquidiocese do Rio de Janeiro ganhou uma rádio própria, a Rádio Catedral, além do jornal semanal Testemunho de Fé.

— Fundei a Rádio Catedral porque eu estava muito preocupado com a comunicação, e uma emissora de rádio é uma coisa muito útil para a evangelização. Com dificuldades, consegui um canal. E, depois, isto foi levado adiante e ainda hoje está funcionando muito bem com toda a equipe. O jornal “O Testemunho de Fé” foi criado pelo mesmo motivo. Vejo o trabalho nas comunicações com muita satisfação. (…) A evangelização é levar a mensagem de Jesus Cristo. Portanto, com rádio, com televisão, tudo isso movimenta e transmite a ideia e, evidentemente, orienta para a mensagem do Evangelho, disse Dom Eugenio em entrevista ao Jornal Testemunho de Fé.

Um exemplo para o clero

 

Dom Eugênio abre os olhos para a eternidade e deixa no Rio de Janeiro um enorme legado e a certeza de que será lembrado para a posteridade como um homem de Deus que soube levar a Boa Nova a todos. Para o Monsenhor André Sampaio, que durante o governo arquidiocesano de Dom Eugenio o acompanhou de perto, o Cardeal será sempre lembrado com afeto:

— Comecei a acompanhar Dom Eugenio como seminarista. Ele tinha costume de sempre ir às atividades, fossem elas qual fossem, com alguns seminaristas o acompanhando. Num determinado momento, Dom Eugenio pediu que sempre eu fosse, pediu ao reitor que sempre me disponibilizasse. Ele sempre descia de carro do Sumaré e eu o encontrava nos fundos do seminário, e lá, ele dizia o que teria que ser feito. Então, assim foi feito quando eu era seminarista, depois como diácono. Eu fui então trabalhar, a pedido dele, como secretário e fiquei até quando padre por mais um ano, explicou.

Padre Eduardo Henrique também teve o privilégio de acompanhar Dom Eugenio ao longo de sete anos, como secretário. Ele recordou que todo o trabalho de Dom Eugenio, todos os esforços dele, eram voltados exclusivamente para a Igreja.

— É um homem extraordinário dentro da história da Igreja. E eu tive o privilégio de trabalhar, desde a vinda do Papa, passando pela renúncia dele da diocese e continuando um pouco mais como Arcebispo emérito, até 2004. Levo muita coisa positiva. Primeiro, a sua seriedade, o seu compromisso, a sua dedicação para com a diocese. Ele era um homem que considerava o seu tempo e o tempo de Deus, ressaltou.

De fato, para Dom Eugenio o que mais importava era ser fiel a Cristo e por isso era sua testemunha. A sua vida de oração, os seus sentimentos, os seus pensamentos, sua conduta, seus afazeres tinham uma meta: a causa do Reino. E essa é uma marca que transcende a existência do Cardeal e se mistura à missão da própria Arquidiocese do Rio. Por isso ele será sempre lembrado com carinho por tantos fiéis, não só do Rio de Janeiro como de todo o mundo.

 * Colaboração: Leanna Scall e Renato Francisco

* Fotos: Jornal Testemunho de Fé

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